Entre 22 e 26 de novembro de 1910, marinheiros e suboficiais da Marinha do Brasil se rebelaram no Rio de Janeiro. A mobilização, inicialmente chamada de Revolta dos Dreadnoughts, contestou as condições de vida e de trabalho na força, com destaque para o uso de chibatadas por oficiais navais brancos contra marinheiros afro-brasileiros.
O episódio foi um dos primeiros grandes protestos contra o governo republicano e contribuiu para impulsionar a Reforma Militar de 1911, que melhorou as condições de vida e de trabalho nas forças armadas.
Por que os marinheiros se rebelaram?
A modernização dos navios não foi acompanhada por mudanças nas relações dentro da Marinha. Oficiais brancos de elite comandavam tripulações formadas em grande parte por homens negros; muitos estavam ligados à corporação por contratos de longo prazo. Castigos físicos eram aplicados até por faltas menores.
O castigo corporal já havia sido proibido para a população livre pela Constituição Imperial de 1824 e no Exército desde 1874. A Marinha proibiu a prática em novembro de 1889, mas a medida foi revogada menos de um ano depois, em meio ao descumprimento generalizado. As punições previstas incluíam prisão a ferro na solitária, a pão e água, por um a cinco dias, e pelo menos vinte e cinco chibatadas para faltas graves. Os castigos podiam chegar a trezentas chibatadas ou mais.
O historiador José Murilo de Carvalho afirmou que a “chibata era quase uma consequência necessária da diferença existente entre o recrutamento de praças e oficiais”.
Como ocorreu o motim?
- Tripulantes do encouraçado Minas Geraes começaram a preparar uma revolta anos antes de 1910, segundo João Cândido, que viria a liderar o movimento. Alguns marinheiros formaram um comitê e se reuniam em segredo no Rio de Janeiro.
- Parte dos tripulantes foi enviada a Newcastle, no Reino Unido, para treinamento ligado à operação dos novos navios. Na cidade, recebiam o pagamento em dia e enfrentavam relativamente pouco racismo.
- Os revoltosos assumiram o controle dos dois novos encouraçados, de um cruzador e de um navio de guerra mais antigo. Com esses navios, dispunham de poder de fogo superior ao restante da Marinha brasileira.
- Sob a liderança de João Cândido Felisberto, os marinheiros enviaram uma carta ao governo e exigiram o fim do que chamavam de “escravidão” na Marinha.
A alta oficialidade discutiu retomar ou afundar os navios rebelados. A desconfiança em relação aos marinheiros e problemas de equipamento dificultavam essas ações; historiadores também questionaram se teriam chances de sucesso.
Qual foi o desfecho?
O Congresso, liderado pelo senador Rui Barbosa, buscou uma solução por meio da anistia e indicou um ex-capitão da Marinha para fazer contato com os rebeldes. O Parlamento aprovou por ampla margem um projeto que concedia anistia aos envolvidos e encerrava o uso de castigos corporais na Marinha.
A anistia, porém, não impediu novas punições. Muitos marinheiros foram dispensados da corporação. Após uma segunda rebelião, motivada por medidas punitivas contrárias à anistia, participantes do primeiro motim foram presos, mortos ou enviados a campos de trabalho em plantações de borracha no norte do país. Durante a viagem para essa região, marinheiros presos foram fuzilados e lançados ao mar.
Quem eram os marinheiros?
Muitos dos recrutados eram jovens negros e pobres; alguns eram órfãos, e parte havia cometido ou era suspeita de cometer crimes. Eles eram enviados à Marinha como aprendizes por volta dos 14 anos. Os recrutados à força serviam por doze anos; os voluntários, por nove.
João Cândido Felisberto foi aprendiz aos 13 anos e ingressou na Marinha aos 16. Um relatório ministerial de 1910 apontava os xadrezes da polícia como a principal origem do alistamento nas Escolas de Aprendizes.
Qual é a importância da revolta para a Marinha?
A revolta levou à aprovação do fim dos castigos corporais na Marinha, embora a anistia concedida aos participantes tenha sido desrespeitada. A Reforma Militar de 1911 melhorou as condições de vida e de trabalho nas forças armadas. O movimento também ficou marcado como um dos primeiros grandes protestos contra o governo republicano.
Perguntas frequentes
Quando ocorreu a Revolta da Chibata?
O motim aconteceu no Rio de Janeiro, de 22 a 26 de novembro de 1910.
Quem liderou a revolta?
João Cândido Felisberto liderou os marinheiros rebelados.
Por que o movimento ficou conhecido como Revolta da Chibata?
O motim foi uma reação ao uso de chibatadas contra marinheiros. No início, também era chamado de Revolta dos Dreadnoughts.
O castigo físico acabou na Marinha?
O projeto aprovado pelo Congresso encerrou o uso de castigos corporais. Ainda assim, a anistia aos revoltosos não foi respeitada e muitos marinheiros foram punidos depois do motim.
Informações conferidas em 8 de novembro de 2026.
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