A Guerra de Canudos foi um conflito entre tropas regulares — primeiro da Bahia e depois da República — e uma comunidade autônoma fundada no nordeste baiano, perto da antiga fazenda de Canudos. O povoado, rebatizado de Belo Monte, reunia cerca de 30 mil colonos. A campanha começou em 7 de novembro de 1896 e terminou em 5 de outubro de 1897, com a vitória das tropas federais e a destruição do povoado.
As suspeitas de conspiração monarquista e a preocupação com a saída de trabalhadores das grandes propriedades agrícolas contribuíram para a intervenção militar. O êxodo de mão de obra pesava mais, para o poder político, do que as acusações de roubo de gado e depredações feitas contra os jagunços, os homens armados da comunidade. Essas acusações eram consideradas injustas.
Quem era Antônio Conselheiro e como vivia a comunidade?
Antônio Conselheiro fundou Canudos depois de percorrer os sertões do Nordeste por cerca de um quarto de século. Pregava uma moral de abstinência e considerava a república recém-proclamada uma criação do Diabo. Após entrar em rebelião aberta contra as autoridades republicanas, fixou-se num local remoto com seus seguidores.
O povoado cresceu rapidamente e chegou a reunir várias dezenas de milhares de habitantes em moradias improvisadas. A comunidade se organizava em torno de ritos próprios e, em certa medida, do princípio coletivista. Seus moradores cultivavam a planície ao redor, vendiam peles de cabra, ofereciam trabalho às fazendas vizinhas e recebiam donativos de admiradores do sertão. Também mantinham relações comerciais com localidades próximas. Entre os habitantes havia diferentes grupos sociais do sertão, incluindo muitos negros libertos e jovens brancos de famílias do litoral.
Pesquisas históricas posteriores contestaram a interpretação de Canudos como uma comunidade formada apenas por pessoas fanáticas. As motivações religiosas foram importantes, mas a mudança para o povoado também podia ser uma escolha prática para quem enfrentava privações, secas, conflitos entre clãs e precariedade econômica, em busca de segurança e estabilidade. Conselheiro manteve, em geral, boas relações com o clero local e não se afastou da ortodoxia católica.
Quais foram as expedições do Exército?
As duas primeiras expedições recuaram antes de chegar a Canudos. A terceira atacou o povoado e sofreu uma derrota severa; a quarta conseguiu tomá-lo após um cerco prolongado:
- Terceira expedição, em fevereiro de 1897: sob o comando do coronel Antônio Moreira César, lançou uma ofensiva contra Canudos. As formações de combate se dispersaram nas vielas e enfrentaram uma guerrilha urbana. Durante a retirada, as tropas deixaram armas automáticas modernas e munição nas mãos dos jagunços.
- Quarta expedição: mobilizou perto de 10 mil homens. Após um cerco de vários meses e bombardeios com artilharia pesada, as tropas federais tomaram o povoado, apesar da resistência feroz e das grandes perdas do lado governamental.
Praticamente nenhum morador se rendeu. Quase todos foram mortos, em combate ou em execuções sumárias. O conflito vitimou entre 15 mil e 30 mil pessoas.
Por que o Exército foi derrotado nas primeiras investidas?
As forças regulares enfrentaram problemas táticos e estratégicos repetidos: desconheciam o terreno, subestimaram os adversários e tinham uma estrutura de comando rígida. Sua organização militar e seu material bélico eram concebidos para batalhas campais, pouco adequadas às condições do conflito. A logística de abastecimento também falhou.
Os jagunços conheciam a caatinga, vegetação arbustiva árida sujeita a condições climáticas extremas. Usavam emboscadas e ataques-surpresa numa guerra de assédio e se valiam de uma rede de trincheiras e abrigos. A familiaridade com o terreno e a flexibilidade dos combatentes dificultavam a atuação das tropas regulares.
Qual é o contexto histórico da campanha?
A guerra ocorreu em meio a mudanças políticas e sociais. A escravidão foi abolida em 13 de maio de 1888; em 15 de novembro de 1889, um golpe militar depôs o imperador e proclamou a República. O novo regime enfrentou a Revolta da Armada, entre 1893 e 1894, e a Revolução Federalista, entre 1893 e 1895, antes da sedição de Canudos. Moreira César, comandante da terceira expedição, havia participado da repressão às duas insurreições.
No sertão baiano, a seca mais severa daquele período ocorreu entre 1888 e 1892, durante a transição para a República. A mudança de regime também ampliou a autonomia dos estados, que passaram a poder taxar exportações e organizar forças armadas próprias. Nesse processo, a Bahia foi o estado que mais perdeu influência nacional.
Qual é o legado da campanha?
Canudos recebeu interpretações distintas. Uma visão difundida pelas elites do litoral retratava os moradores como camponeses atrasados e supersticiosos, conduzidos por um líder fanático. Pesquisas históricas posteriores questionaram essa leitura e consideraram também as condições sociais e econômicas que levaram pessoas a buscar segurança na comunidade.
O conflito inspirou obras literárias como Os Sertões, de Euclides da Cunha, considerado um dos livros fundamentais da literatura brasileira, e A Guerra do Fim do Mundo, romance de sucesso de Mario Vargas Llosa.
Perguntas frequentes
Onde fica Canudos?
Canudos fica no sertão do norte da Bahia, ao norte da cidade de Monte Santo. A região situa-se entre o rio Itapicuru, ao sul, e o baixo curso do Rio São Francisco, ao norte.
Quantas pessoas morreram na Guerra de Canudos?
O conflito vitimou entre 15 mil e 30 mil pessoas.
Quando terminou a Guerra de Canudos?
A campanha terminou em 5 de outubro de 1897, com a vitória das tropas federais e a destruição do povoado.
Quem foi Antônio Conselheiro?
Antônio Conselheiro fundou a comunidade de Canudos. Era um pregador itinerante que defendia uma moral de abstinência e considerava a república recém-proclamada uma criação do Diabo.
Informações conferidas em 7 de novembro de 2026.
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